Satiro, central do RJ Vôlei, após passar por times fora do Brasil, diz que representar o Rio em quadra é um “sonho realizado” e lamenta a falta de investimento no esporte na cidade

Mayara Rufino | @capitolinda
Mariana Miquelino | @marianagermana

Satiro, central do RJ Vôlei, conversou com o Linha antes e depois da fatídica partida contra o Vivo/Minas. Foto: Mayara Viegas/Linha das 5
Satiro, central do RJ Vôlei, conversou com o Linha antes e depois da fatídica partida contra o Vivo/Minas. Foto: Mayara Viegas/Linha das 5
Após uma temporada cheia de altos e baixos, o RJ Vôlei encerrou sua participação na Superliga 2013/14 na última terça-feira, 11. A equipe começou o campeonato com nomes da seleção, como Rodrigão, Bruninho, Vissotto, e com o patrocínio da petrolífera OGX, de Eike Batista. No decorrer da liga o time teve desligamentos, e os que até então não tinham tanta responsabilidade com a equipe e com a torcida, os reservas, viram a situação mudar. Silvio Satiro dos Santos, ou simplesmente Satiro, foi um dos que tiveram mais destaque com a debandada de atletas do Rio.

A eliminação do RJ foi difícil: a equipe carioca lutou até o fim, empurrada pela torcida.  Satiro, que substituiu o central Riad, teve naquela partida – decisiva – sua grande chance. Sempre entrava em quadra na inversão dos 5 em 1 durante a competição, mas na terça entrou para ficar: e fez o seu. Jogou bem. Talvez se tivesse entrado antes, assim como Alemão e Everaldo, que entraram pontuando, o resultado seria diferente.

O meio-de-rede carioca conversou com a nossa equipe antes e depois da partida fatídica contra o Vivo/ Minas. Após a partida, muito emocionado, Satiro agradeceu o apoio da torcida e diz ter ficado feliz com sua “estreia” na equipe. Na entrevista pré-jogo o central ficou muito à vontade e falou de tudo, desde seu ídolo na posição – Gustavo Endres – , até as dificuldades de se manter um projeto – e  de se manter em um – na atual circunstancia do vôlei nacional. Quer saber mais sobre ele? Vem com a gente!

Pelo visto, simpatia é um requisito obrigatório para ingressar no RJ Vôlei. Assim como seus colegas de equipe, Satiro esbanjou bom humor ao conversar com o Linha. O central de 30 anos é carioca e disse que não tinha o vôlei como uma ambição quando era mais novo.

Mariana: A primeira pergunta, que a gente fez também pro Índio, é como é que você começou no vôlei? O que te incentivou a começar na carreira?

Satiro: No início assim, eu nunca sonhei… Quando a pessoa é pequena, ela sempre sonha “ah, vou ser médico…”. Eu não sonhava ser jogador de vôlei, aconteceu naturalmente. O primeiro esporte que eu fiz foi o judô, aí eu comecei a crescer muito e eu vi que ‘tava’ levando desvantagem, sempre quando eu ia competir, pessoal já queria dar uma ‘catada’ na minha perna. Aí na Educação Física do colégio eu comecei a jogar vôlei, a gente começou a competir também, jogos estudantis. E teve um torneio chamado Jogos da Paz e nesse mesmo dia tinha um time da Olympikus, que é profissional; isso foi em 99. Aí nesse mesmo dia (sic) teve os jogos e o técnico da Olympikus me chamou ‘pra’ fazer um teste lá no Grajaú (bairro carioca) e foi lá que despertou um interesse maior ‘pra’ jogar voleibol e to nessa estrada aí até hoje.

Diferente de muitos jogadores, o maior incentivador do atleta não foi um parente nem o professor de Educação Física. Na verdade, ele teve uma grande incentivadora. O agradecimento aqui fica a cargo da sua primeira namorada.

Satiro: Quem me incentivou foi a minha primeira namorada! Eu não sentia atração nenhuma por esse esporte, voleibol… Eu era alto e ela falava “vai, você tem uma altura boa, começa a treinar, você vai gostar”. Aí eu comecei a treinar e adorei e ‘tô’ aí… (risos)

Mayara: E ‘tá’ ainda com a namorada? (risos)

Satiro: Não, isso tem muito tempo, eu tinha quinze anos! Foi a minha primeira namorada…

Na categoria “jogador no qual me espelhei”, Satiro cita o nome de um dos maiores centrais do vôlei brasileiro de todos os tempos.

Satiro: Quando eu comecei a acompanhar mais o voleibol, eu me espelhei muito no Gustavo. Gustavo era bloqueador e pode ver que ele ta aí até hoje! No nosso esporte é difícil você ter uma trajetória longa assim e ainda mais central, que tem uma vida útil mais reduzida. E o cara ta aí até hoje, ele é uma inspiração ‘pra’ mim.

O central já jogou no exterior e diz que bom mesmo é jogar no Brasil.
O central já jogou no exterior e diz que bom mesmo é jogar no Brasil. Foto: Mayara Viegas/Linha das 5

A trajetória do atleta conta com passagens tanto em times nacionais quanto em equipes do exterior. E ele afirma que bom mesmo é jogar aqui no Brasil, onde o nível das competições é mais elevado. Aliás, disse que uma das experiências mais marcantes em relação à convivência com os companheiros de profissão foi ter conhecido alguns dos jogadores que integram a nossa seleção.

Satiro: Eu joguei no Sul, joguei em Volta Redonda e em Juiz de Fora.

Mariana: E já jogou fora do país também?

Satiro: Fora do país, joguei em Portugal, Suíça e Espanha.

Mayara: E como é que foi jogar fora? Qual a diferença das ligas lá de fora e as daqui?

Satiro: Foi uma experiência boa, mas em relação a nível, o campeonato brasileiro é bem melhor do que o português, ou o suíço ou o espanhol que eu passei. O nível brasileiro é bem mais forte. Mas é uma experiência muito legal você aprender outras línguas, conhecer culturas diferentes, é muito bom.

Mariana: Chegou a conhecer algum jogador marcante lá fora? Algum brasileiro?

Satiro: Marcante assim, não. Mas um sonho realizado meu foi aqui, nessa temporada, no RJ. No início, tinha o Bruninho, Vissotto, esses caras assim que você vê na seleção brasileira e jogar junto é legal. É uma experiência muito boa. Eu tinha um pensamento totalmente diferente (do de quadra), ver só na televisão, jogar contra, eu pensava que os caras eram meio soberbos, marrentos, mas conviver com os caras no dia a dia é totalmente diferente, super gente boa.

Satiro destacou, ainda, o carinho que tem pela torcida do RJ Vôlei, que acompanhou o time mesmo nos momentos difíceis, com a fatídica perda do patrocínio da OGX e a saída dos jogadores-chave. Sobre essa situação complicada, disse que foi bastante difícil para o time ter que se ver num processo de reestruturação tão profundo no meio do maior campeonato nacional.

Mayara: E como que foi segurar a barra de eles irem e vocês ficarem?

Satiro: No início, no início, foi difícil. O time titular foi todo embora, né. Só ficou o Salau (Ualas de trás para frente), o Riad não estava compondo o grupo ainda, porque estava voltando de lesão, e o Mário. Foi bastante difícil. Em janeiro, a galera toda tinha saído, compôs um novo grupo, pra pegar um corpo de novo foi… A gente tá mostrando resultado agora com esses jogos de Canoas, Sesi, a gente tá tendo uma crescente, mas foi difícil pra caramba.

Mayara: É, porque eles já estavam com um time estruturado desde o começo do campeonato e vocês no meio do campeonato que foram perdendo os elementos…

Satiro: Pois é, foram quatro, cinco.

Mayara: E aí vocês tiveram que pegar corpo…

Satiro: Ah, teve que estruturar tudo de novo. Pegar um corpo, uma cara nova. Começar meio que do zero.

Mayara: E como você vê o apoio da torcida?

Satiro: Então, o apoio da torcida é muito importante. Teve lugares em que eu joguei, por exemplo, em Portugal, que o time começava a perder os jogos e a torcida passava a falar mal… dar cornetada…

Mayara: Aqui hoje está ao contrário, né?

Satiro: Ah, então eles incentivam, né? Mesmo com o time tendo essa sequencia de derrotas, ela continua incentivando, dando palavras de apoio…

Mariana: “Derrota” entre aspas, né?

Satiro: Pois é! A gente está jogando bem, só não está saindo a vitória…

Mariana: Acho que está muito acima do que quando a gente recebeu a notícia que tantos jogadores iam sair, a gente esperou o pior do time. O time ficou realmente muito melhor do que a gente esperou, o jogo contra o Sesi, inclusive, foi uma felicidade para a torcida carioca. Porque a gente ficou muito tempo sem ter um time aqui e que participasse da Superliga. Então, é uma felicidade muito grande…

Mayara: Olha a parcialidade da repórter, gente! (risos)

Satiro: Que apareçam mais times e que o projeto continue aqui também! Tem um time em Volta Redonda, mas um time aqui do Rio, há muito tempo não tinha.

Falando no surgimento de novos projetos, a gente relembrou um dos primeiros assuntos abordados pelo blog: a concentração absurda de times na região Sudeste, especialmente em São Paulo e Minas Gerais, em contraste com a infraestrutura precária para o esporte nas outras regiões.

Mariana: Eu estava falando aqui com a Mayara que o Vôlei tá muito concentrado em algumas áreas, por exemplo, em São Paulo e Minas. Nordeste não tem nenhum representante na Superliga Masculina… Na feminina tem, mas não tem nenhum patrocínio forte. Norte nunca ouvi falar, centro-oeste também. É muito concentrado no Sudeste, especificamente em São Paulo e Minas.

Satiro: Esses times de alto nível realmente estão concentrados no Sudeste. Porque lá no norte é difícil, cara. Eu já joguei num time de lá pela primeira fase da Superliga B e os caras… Tem pessoas que tentam fazer isso, mas é muito difícil. Estrutura e esse deslocamento Rio – SP – MG, essa viagem de ir lá pra cima e voltar, é um gasto extra que eles têm. Por isso que é muito difícil ter esses times de alto nível lá. Ou tem time e não é duradouro. Em duas temporadas, acaba.

Mariana: É uma pena porque tem jogador dessa área que tem que vir procurar vagar por aqui…

Satiro: É, tem gente que tem o dom, mas não tem a oportunidade. E tem jogador que tem a oportunidade e não aproveita.

Para o jogador, os problemas de deslocamento são umas das maiores dificuldades de quem está começando no vôlei. Foto: Mayara Viegas/Linha das 5
Para o jogador, os problemas de deslocamento são umas das maiores dificuldades de quem está começando no vôlei. Foto: Mayara Viegas/Linha das 5

Como maior dificuldade para um jovem atleta emplacar na carreira, Satiro aponta justamente a falta de patrocínio para criar estruturas que acolham melhor quem está começando, em especial no quesito transporte. Ele também dá uma dica preciosa para o jogador que se inseriu agora no esporte e está enfrentando todas essas barreiras.

Mariana: Qual você acha que é a maior dificuldade ‘pra’ um atleta começar na carreira? Falta de patrocínio?

Satiro: Ah, acho que a falta de patrocínio. Eu tive muita dificuldade de deslocamento. Nessa época, eu morava em Santa Cruz da Serra, perto de Xerém, aí o deslocamento… Ir ‘pra’ Grajaú, voltar… Isso aí prejudica bastante. Lá não tinha esse lance de alojamento pra ficar lá, passar a semana inteira e voltar pra casa no fim de semana, tinha que ficar fazendo esse esquema de ir e voltar. E tinha o colégio também, né. Eu estudava em Caxias, ia pra Grajaú e do Grajaú ia pra casa, essa era a rotina. Acho que a dificuldade maior nesse período é esse translado.

Mariana: E você tem alguma dica para quem tá começando e não vê muita facilidade?

Satiro: Ser perseverante. Tem aquele lance da pessoa estar no lugar certo, na hora certa. Foi o que aconteceu comigo. Se eu não tivesse participando desse time do colégio, eu não estaria aqui hoje. Eu estava no lugar certo e isso serviu de incentivo. Acho que isso… a palavra chave é perseverança.

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Publicado por Mayara Rufino

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Nasci Mayara, mas pode me chamar de Capitolinda. Sou formada em Jornalismo, faço pós em Literaturas Portuguesa e Africanas, e apesar de ser sedentária e das letras, sou apaixonada por vôlei.

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Um comentário sobre “Satiro, central do RJ Vôlei, após passar por times fora do Brasil, diz que representar o Rio em quadra é um “sonho realizado” e lamenta a falta de investimento no esporte na cidade

  1. Esse treinador da Olympikus deveria ter bom olhos para descobrir bons talentos pois teve a capacidade de escolher um jogador tão gabaritado como Silvio Satiro dos Santos.

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